A cultura que repele a inovação

A cultura que repele a inovação

Por Arq. Tiago Ricotta em https://bit.ly/366hV0B

A padronização é super bem-vinda no mercado AEC, mas existe uma linha tênue entre padronizar e criar dogmas que atrasam a inovação e criam uma cultura que repele e mata a semente de novas ideias.

Padronização e o paradigma dos 5 macacos (1/7)

Um tema, uma frase explicando esse tema e uma chamada para iniciar esse texto: em três níveis diferentes já tem um monte de contradição e palavras que talvez nem deveriam estar na mesma frase e estamos só iniciando essa Newsletter.
Dentro do mercado de Arquitetura, Engenharia e Construção existem várias normas e processos padronizados que sem essas definições teríamos um mercado muito mais inseguro e instável em vários aspectos: desde questões de segurança de obra até procedimentos para como construir nossas casas de maneira a ter o mínimo de salubridade.
Sobre essas normas e padronizações não temos muito o que comentar ou ir contra, as ABNTs 5410 (projeto elétrico), 9050 (acessibilidade), 6118 (cálculo estrutural de concreto) entre várias outras são extremamente relevantes. Então qual o ponto do texto?
O ponto vai na linha da frase que mais ouvi na minha vida profissional em processos de mudança de cultura e adoção de tecnologia “fazemos assim porque sempre foi feito assim”.
Na filosofia de Gente e Gestão, People Experience ou o famoso RH é muito comum ouvir do paradigma dos cinco macacos e das bananas.
Basicamente cientistas reúnem 5 macacos em uma jaula e colocam um cacho de bananas no meio, para cada vez que um macaco tenta pegar uma banana todos os macacos recebem um banho de água gelada, com o tempo as tentativas de pegar a banana são reprimidas pelo grupo de macacos que não querem mais levar banho de água gelada.
A mágica da história acontece quando os cientistas trocam um macaco por vez até que não existam mais os cinco macacos originais, mas as tentativas de pegar as bananas continuam sendo reprimidas com violência mesmo que nenhum deles saiba a razão ou tenham levado um banho gelado na vida.

O banho gelado em AEC (2/7)

Em algum momento da história das empresas um pequeno grupo de profissionais decidiu iniciar uma jornada empreendedora e foram definidas algumas regras e/ou padrões sob as circunstâncias daquele período específico, ou seja, muitos processos podem ter sido criados sob falta de recursos e até mesmo capacidade técnica limitada.
O banho gelado, ou melhor, o problema, começa quando essa linha de como fazer as coisas acaba sendo perpetuada e nunca mais é revisada, é neste momento em que começam a ser criados dogmas empresariais ou mesmo coletivos em forma de mitos que o mercado vai absorvendo e espalhando sem que o fundamento principal para manutenção do status quo seja conhecido.
Geralmente uma das primeiras perguntas que faço quando estou avaliando um processo dentro de uma empresa é o “por que as coisas são feitas assim?” a história que vier na sequência diz muito sobre uma série de coisas da vida da empresa como cultura, gestão de conhecimento, repertório dos profissionais, maturidade, entendimento do problema etc.
Grande parte das vezes é nesse momento que a resposta clássica aparece em alto e bom som “sempre foi assim”.

Em time que esta ganhando não se mexe (3/7)

Eu acredito muito que somos a soma de todas as experiências que já vivemos, não gosto de falar que sou arquiteto com isso, isso ou aquilo de formação. Ouvindo os porquês do pessoal geralmente é onde mais aprendo e isto vai criando o repertório de soluções, daí para frente é usar a criatividade para as sugestões sobre o que fazer.
É neste ponto que a cultura começa a repelir, principalmente quando a criatividade leva a um frio na espinha do pessoal no sentido de que se você olhar para o lado e não tiver nenhuma referência de sucesso para ao menos embasar ou justificar uma mudança de rumos em um processo vencedor, qual a razão da resistência em alterar processos que estão dando resultado e otimizá-los?
A resposta está na própria pergunta, porque esta dando resultado, logo, se estou garantindo a sobrevivência da empresa e do emprego dos colaboradores não tem motivos para fazer otimizações que troquem o certo pelo duvidoso, certo? Errado.
Já vi casos no qual a cada real de margem feita era um real de prejuízo identificado, mas isto era considerado do business e qualquer mudança era repelida pelos times de engenharia, mas como todos estão recebendo o bônus não há estímulo para pensar coisas diferentes e garantir resultados diferentes.
Quando não há este estímulo para fazer diferente e atrelar metas que impactem diretamente no bônus dos times dificilmente sairão ideias ou formas de fazer diferentes daquilo que já existe, ou pior, essas pessoas com o bônus garantido vão lutar com afinco para matar qualquer ideia que possa ameaçar o status quo.

Apaixone-se pelo problema (4/7)

O principal papel de um CEO deveria ser pensar e criar um negócio novo que vai matar o negócio atual, principalmente neste mundo conectado e rápido que estamos vivendo.
Mesmo com o time ganhando, sempre é preciso melhorar e otimizar processos, mas no mercado AEC isto é muito difícil de fazer pois os profissionais são muito apaixonados e apegados nas soluções existentes e não ao problema que estão resolvendo.
Algumas coisas neste mercado são interessantes, como por exemplo a escolha de um ERP, que é tão renegado no início dos negócios, as vezes com a escolha tendo um pouco de pessimismo em uma linha de investir o mínimo possível pois a coisa pode não dar certo, que talvez escolher bem logo de cara poderia otimizar custos futuros uma vez que vai ser um parto trocar isto no futuro se o negócio der certo.
Talvez uma das melhores discussões para se ter dentro de um escritório ou construtora seja perguntar para os profissionais se eles estão felizes com o que o ERP entrega e se não seria uma boa ideia trocar.
Tenho um feeling de que metade dos profissionais vai se sentir aliviado e a outra metade vai defender com unhas e dentes de que não é preciso trocar, vai ser 50% careta e 50% sorrisos, quem está certo? Bem, qual problema estamos resolvendo e para quem estamos resolvendo este problema?
Os 50% felizes vão defender a permanência da solução porque eles conseguem fazer a tarefa deles numa boa, mas os 50% da careta vão defender a troca porque a solução não resolve o problema deles.
No fim o que falta é uma visão holística, os 50% felizes podem continuar sendo felizes usando o que já possuem, as vezes o que faz careta nos outros 50% podem existir soluções que somente eles podem utilizar e assim fazer a informação circular com todo mundo feliz.
Não queira usar uma furadeira para martelar um prego, tem ferramentas específicas para cada situação, mas isto envolve pesquisa e cabeça aberta para não aceitar o que vier.

O TI é o rabo e não o cachorro (5/7)

Se devo usar um martelo para pregar um prego e uma furadeira para fazer um furo na parede, TI deve ser voz ativa no negócio para garantir que tudo se conecte e funcione garantindo sorrisos.
O grande problema das equipes de TI atuais no mercado AEC é não compreender o que de fato a área de negócio faz, ou pior, acreditar que sabem o que a área de negócio faz quando não tem a menor ideia de como resolver as coisas.
TI é o rabo do cachorro, não é o cachorro em si. Ouvi isso de um dos maiores profissionais com quem já trabalhei.
Muitas coisas poderiam ser melhores do que são no mercado se houvesse mais harmonia ou mesmo integração entre as áreas de tecnologia e área de negócio nas empresas, me arrisco a dizer que se fizer um NPS das áreas de TI teremos mais detratores do que promotores, e isto também acaba sendo um fato que mata a semente da inovação, afinal, já deu um belo trabalho montar todo o parque de TI na empresa qual a razão de arriscar e colocar tudo a perder?
Profissionais AEC não são programadores, gerentes de infraestrutura de redes ou analistas de banco de dados, muitos possuem conhecimento avançado em algumas áreas de programação por conta da necessidade do dia a dia, mas exatamente por isso TI deveria ser um fomentador de inovações e otimizações e não um blocker no processo.
A pior coisa que uma empresa faz é solucionar um problema de engenharia através da ótica da TI, a chance da paixão sair do problema e ir para a talaricagem da solução é enorme.

Fomentando a inovação (6/7)

Em um mercado em que as opiniões são fortes e existem vários mitos sobre o que fazer e o que não fazer, pode parecer ao longo do texto que é impossível fazer mudanças, mas não é esta minha opinião.
Difícil certamente é, mas quando você tem times novos que estão aprendendo sobre determinado assunto ou processo, geralmente esse momento é ideal para colher feedback e melhorar as coisas, isto em uma linha incremental.
A visão de quem esta fazendo alguma coisa pela primeira vez é fundamental para conduzir mudanças e estimular a geração de ideias.
Os principais cases de inovação que vi na indústria AEC nasceram assim, as vezes com um pouco de força no sentido de ir retirando do caminho as pessoas que estavam bloqueando as mudanças necessárias, mas muito na linha do “não sabendo que era impossível foi lá e fez”.
Agora para fazer uma disrupção no mercado além do alinhamento de ideias e forte liderança do CEO será preciso bastante resiliência para superar a descrença do mercado com a iniciativa, pois o mercado AEC é muito São Tomé, só acredita vendo.
Ao trilhar caminhos desconhecidos e mesmo sem ter cases para mostrar será preciso acreditar no track record da liderança, sendo isto fundamental para conseguir chegar do outro lado e ter sucesso.
Não existe uma fórmula de inovação ou uma receita, existe muito trabalho duro e crença nas ideias por parte dos fundadores e/ou sponsors de que a coisa pode dar certo, mesmo quando o mercado se une para falar o contrário.

O futuro (7/7)

Evitar os dogmas, mitos e outros contos que o mercado acaba acreditando sem fundamentos sólidos é muito perigoso, esta acaba sendo a maior força repelindo aquilo que é novo e inovador.
As vezes uma frase em um livro de 15 anos atrás é perpetuada e o conceito já evoluiu tanto que a frase deixou de ser verdade.
Abrir a cabeça, aprender a aprender e aprender a desaprender e aprender novamente, são para mim, a principal características que precisamos nestes tempos, principalmente porque é muito possível que a disrupção ou incremento estejam utilizando coisas que são exatamente aqueles dogmas e mitos que todo o mercado acredita que não faz o menor sentido de ser usado ou fomentado.
É difícil não emitir uma opinião contundente sobre os temas do mercado AEC, principalmente para quem esta nele a tanto tempo e já vivenciou muitas coisas, mas até nisso acredito que é legal dar abertura ao contraditório e ouvir uma opinião diferente.
Qualquer iniciativa, mesmo as que dão errado (e geralmente essas são as mais valiosas), gera aprendizado, e aprendizado na mão dos resilientes gera conhecimento para superar os desafios de botar um negócio de pé.
Incentive seus pares a pensar em como podem melhorar seus processos e formas de fazer as coisas, da quantidade sai qualidade e com certeza alguma proposição de alto valor aparecerá.
É nos problemas que moram as grandes inovações,
Obrigado,
Tiago Ricotta